sexta-feira, 18 de abril de 2014

Guimarães



Castelo de Guimarães


Guimarães é, em minha modesta opinião, a mais bela jóia que já tive a oportunidade de visitar em terras portuguesas, neste particular país debruçado no limite ocidental da Europa, o qual admiro de forma muito respeitosa. Curioso como ao longo da vida, a minha impressão sobre Portugal mudou para melhor, acompanhando minha maturidade pessoal: partindo de um início carregado de esteriótipos infelizes de colonizado, passando por uma primeira visita calorenta e pouco impressionante ao sul do país, até chegar ao entendimento e redenção à sua rica e grandiosa história e cultura - que também é parte da minha, sobretudo a magnífica língua portuguesa - e que culminou com uma inesquecível segunda viagemàs suas mais lindas paragens, compreendidas entre o Douro e o Minho.


Simbólico arco que marca a entrada do centro antigo da cidade


Monumento ao Teatro

Guimarães, escolhida como a capital cultural na Europa em 2012, foi o ponto de partida do qual nasceu, a partir de sucessivas conquistas, a nação portuguesa, sendo bem conhecido entre os patrícios o mote: "Portugal é Guimarães, e o resto é conquista". Lugar emblemático da forte identidade nacional deste pequeno país, Guimarães é fonte de orgulho e referência inegável da cultura lusófona. Com mais de mil anos de história como cidade, cuja existência precede a própria fundação de Portugal, o local já era um ponto de intersecção de multiplas vias romanas, séculos antes.




O mais belo monumento da cidade é indiscutivelmente o Castelo de Guimarães (foto da postagem), tendo servido, em torno do ano 1000, como fortificação que protegia o jovem Condado do Portocale das incursões vikings e Árabes. Este condado era um discreto território, ainda vassalo do reino espanhol de Leão, e foi o verdadeiro núcleo de origem do Portugal. Classificado como Monumento Nacional, em 2007 o castelo foi eleito informalmente como uma das Sete maravilhas de Portugal.


Capela de São Miguel do Castelo, onde teria sido batizado D. Afonso Henrique

De acordo com a tradição, foi nos dominios deste castelo que teria nascido em 1106 D. Afonso Henrique, o grande. Foi ele o fundador do Reino do Portugal, e também seu primeiro Rei. O condado Portucalense era agora autônomo. Nascia assim a nação mais antiga da Europa, de lingua própria, e um reino que duraria quase oito séculos, cuja dimensão territorial foi aumentada por bravas conquistas sucessivas, que ampliaram ao longo dos anos seus domínios por boa parte da Península Ibérica, tendo eventualmente se tornado, séculos depois, um imenso Império, com domínios ultramarinos tão distantes quanto o Brasil, Macau (na China), Goa (na India), e uma boa porção do continente africano.


Castelo dos Duques de Bragança, erguido no século XV em estilo Francês, foi todo restaurado na década de 30 para servir de residência oficial do ditador fascista Salazar.

A bela igreja de Nossa Senhora da Oliveira, em estilo Gótico, e à sua frente o icônico  Padrão do Salado, que comemora uma vitória de Afonso IV contra uma esquadra muçulmana.

Foi em Guimarães onde finalmente dimensionei a grandeza e a importância de Portugal, e de sua notável história, que é também a origem da história do Brasil, de nossa língua comum, e de uma relação que deve nos aproximar muito mais do que nos isolar. É este tipo de epifania que faz de uma viagem algo de valor incalculável. Somos todos filhos da nação portuguesa, e devemos ter um imenso prazer nisso. Ressentimentos históricos tolos e pequenas diferenças à parte, morramos todos de orgulho de fazer parte desta grande pátria que é a língua portuguesa.



segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Ankara


o faraônico tumulo de Ataturk


A Turquia é um destino que entrou há alguns anos na rota dos viajantes brasileiros, que cada vez mais se aventuram por lá. País de riqueza histórica e cultural incalculáveis, tem como porta de entrada natural para o turista ocidental a grandiosa Istambul (qualquer dia escrevo sobre ela aqui). Istambul, maravilhosa como é, não deixa de ser uma metropole de feições mais ou menos européias (os turcos a chamam de "Paris" da Turquia, lotada de turistas, e de um modo geral, dotada de forte vocação ocidental. Sendo assim, tive a chance e achei por bem sair da zona de conforto do turista médio e decidi conhecer a Turquia mais autêntica, e para tal foi preciso cruzar o Bósforo rumo ao leste, ganhando terreno através da Asia menor por estradas que já serviram como rotas de comércio entre o ocidente e o oriente, e assim viver uma boa aventura.


Mesquita Kocatepe, em estilo otomano

Deixar Constantinopla para trás vai revelando pouco a pouco a verdadeira face desta enorme nação islâmica, que já sediou um dos impérios mais poderosos da terra, o Império Turco Otomano, mas que após uma série de incongruências históricas deixou para trás tamanha glória, dando lugar à um cenário bem mais simplório. Mesmo sendo um país cogitado a entrar na União Européia, ainda está longe de ostentar padrões de vida de primeiro mundo. 


Bandeita turca em flores no parque Ataturk


Pelas estradas, o país vai se revelando através de suas pequenas vilas, suas quase proto-favelas, industrias, incontáveis mesquitas, cenários de grande opulência lado a lado com as mais humildes condições de vida (lembranças do Brasil). Junto, surgem inúmeros novos sabores, aromas, frutas, hábitos, músicas, e é claro, pessoas. O turco é parecido de um modo geral com o brasileiro. São simpáticos e acolhedores. Fica bem claro, uma vez fora de Istambul, tratar-se de uma sociedade machista e patriarcal. As mulheres são poucas nos lugares públicos, e devidamente escondidas em seus trajes e véus. Os homens costumam andar à frente das mulheres na rua, e não é raro dois ou três deles caminharem de mãos dadas. As mulheres ocidentais atraem olhares que misturam curiosidade e reprovação, e usar uma calça jeans ou legging é garantia de virar o centro das atenções. Quase ninguém fala inglês, e um guia local certamente será de grande utilidade.

Aspecto cotidiano de Ankara


Algumas centenas de kilometros longe de Istambul e você terá a sensação de estar em algum lugar do oriente médio: a semelhança da paisagem, 100 % dos homens têm bigodes, os lojistas deixam de te atender para fazerem suas orações, nada no cardápio se parece com o que você come, nada no rádio se parece com o que você conhece, e nas ruas os auto falantes dos minaretes dominam o ambiente com cânticos islâmicos. Você olha para os lados e se dá conta que está mesmo muito longe de casa. A próxima referência de ocidente só aparece após um dia inteiro de estrada, quando se chega à Ankara, na Anatólia oriental, capital do país e sua segunda maior cidade. Estar lá é como entrar em um filme turco dos anos 70.

Estátua equestre do onipresente Ataturk, numa praça do centro


Ankara é, digamos assim, a Brasília de lá, sediando o Parlamento Turco, os ministérios e demais instituições governamentais, assim como as sedes diplomáticas. Embora a cidade remonte em suas origens a idade do bronze, foi à partir da revolução republicana liderada por Ataturk, o "pai dos turcos", que a cidade tornou-se a capital do país, e foi reformulada em colossal estilo totalitário, seguindo a imagem que pretendia projetar: heróica e mítica.  Após a morte de Ataturk, a cidade virou também o seu legado. O Homem é adorado como libertador turco, e de fato foi graças à ele que o país deixou para trás o isolamento e o sectarismo de um estado religioso, à sombra do corão, e emergiu como uma nação democrática moderna nos moldes ocidentais, sua maior pretensão. Ataturk era de fato um adorador do ocidente: adotou a monogamia, o alfabeto latino, o parlamento, e seu estilo de vida era o de um playboy à moda Rockfeller, repleto de bailes, caças, iates, carros de luxo, e a lisura de um dandi. Todos os seus mimos e brinquedos estão em exposição no seu mausoléu, faraônico monumento-túmulo que também abriga um ufanista museu republicano, que sataniza sem dó gregos e britânicos.



Jardins + prédios sem personalidade = Ankara


Ankara, em termos urbanísticos, lembra o leste europeu, e é burocrática e desprovida de charme, repleta de prédios cubistas e superquadras planejadas, estádios e estações de fachadas grandiosas, uma cidade de arquitetura meio "soviet" - máquinas de habitar, máquinas de comandar - o que não deixa de ser interessante.  A monotonia é quebrada apenas pelos seus belos parques e bem cuidadas áreas verdes estrategicamente colocados. O eixo principal é cheio de restaurantes de comidas típicas, inclusive fast foods de especialidades locais. Por conta dos meu apreço pelas comidas perigosas, somados à dois dias de comidas de estradas, acabei ficando, pela primeira vez após anos de viajante, realmente doente, tendo sido informado que por lá isso é muito provável de ocorrer ao viajante ocidental. Há no centro da cidade ainda um frenético comércio, juntando em inúmeras galerias, lojas bem populares estilo "china", ao lado de outras mais elegantes. Os preços são baratos, em comparação a Europa, especialmente os das roupas (quando eu fui uma lira turca valia um real). Foi muito bom circular pelas ruas observando os hábitos dos locais e o cotidiano daquela parte do mundo.


Coma tudo em Ankara, mas depois não diga que eu não avisei. O kebab é Top, e os Baklavás inigualáveis !


A maior atração cultural de Ankara é o Museu das civilizações da Anatólia, localizado em uma colina cercada por um belo jardim, que disseca detalhadamente o passado hitita, persa, grego, macedônico, romano, bizantino, e por fim, Turco-otomano da região. Essas influências se somaram para construir a complexa identidade cultural deste notável país, que sempre esteve na encruzilhada de dois mundos, seja no meio do longínquo conflito persa e grego, ao recente conflito da guerra fria, quando a Turquia era estrategicamente para os Estados unidos o que Cuba era para os Russos, em virtude de sua valiosa posição às barbas do inimigo. Depois de Ankara, rumando para o leste, penetra-se ainda mais nos domínios do orientalismo, até que se chega finalmente à lunar Capadócia, mas isto já é assunto para uma outra postagem ...


Interior do magnífico museu das civilizações da Anatólia

 

Todas as fotos Lord Vader

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Zurique

Torre da Catedral Grussmünder ,em meio à silhueta urbana, monumento mais destacado da cidade, com cerca de mil anos

Há alguns anos atrás tive a felicidade de ser convidado por uma amiga  para ser padrinho do seu casamento com um simpático Suiço. Ela iria deixar o Brasil para viver em Zurique, mas antes de partir deixou o convite para que em breve eu fosse lá visitá-los. Demorou um pouquinho, mas finalmente 3 verões depois lá estava eu, em Zurique reencontrando os amigos, que me receberam tão gentilmente e com a maior hospitalidade possível. Cheguei na Suíça de trem, à partir da França, e uma subida íngrime foi a dica de que estava chegando. Aquelas montanhas de vegetação densa, frias em pleno verão, foram a minha porta de entrada para esse incrível país, que na falta de uma comparação mais original, foi o local mais organizado e civilizado que me lembro de ter estado.


Aspecto agradável do centro antigo


Zurique é a "metrópole" suíça, e mesmo que tenha apenas 300 mil habitantes é grande o bastante para os padrões do país. Mas não há sinais de metrópole: com excessão do seu centrão, a Banhoffstrasse, a rua principal, do agito e do comércio, que leva até a estação de trem central, a cidade é um conjunto de inúmeros bairros residênciais verdejantes, lindas residências e a inevitável visão ao fundo de algum pico nevado, além é claro do cristalino e gigantesco lago. Até o "gueto" de lá é tão agradável quanto possível , e se afastando uns poucos quilômetros do centro, tudo já tem cara de interior. Não tem erro, a Suiça tem mesmo essa paz quase preocupante. Como brasileiro posso dizer que foi sofri um enorme choque cultural , tratando-se de um lugar nada familiar aos meus modelo caóticos de cidade grande.


Estação central de trens e bondes, vista à partir da Banhoffstrasse

Lago Zürich, área de lazer de baixa temperatura, mesmo no verão

Essa esterelidade Suíça pode até alarmar alguns (me parece que sobretudo aos suíços). De fato, não sei exatamente como a coisa funcionaria caso eu precisasse viver por lá por um período grande de tempo, pois o lugar definitivamente não é um lugar vibrante, mas para turistar é ótimo. Alguns hábitos locais me pareceram surpreendentes. Por exemplo: quando você toma o trem na área urbana, não há qualquer controle de tickets, as bicicletas ficam nas estações sem qualquer cadeado ou segurança e simplesmente estarão por lá até o final do dia. Não era pra ser, mas essa maré de honestidade espanta um brasileiro ...




Torre da igreja St Peter, com seu enorme relógio de precisão, de dois angulos distintos. 

O centro histórico, é pequeno e muito agradável, harmônico, de cores discretas e arquitetura típica, completamente germanizada como era de se esperar. Aliás, não apenas Zurique, mas toda a suíca (e Alemanha), são o paraíso da bela arquitetura enxaimel. Zurique é cortada pelo rio Limmat , que nasce no enorme lago, atravessa a cidade, e lhe dá mais personalidade. Zurique é uma cidade pacata. Não há multidões de pessoas trafegando pelas ruas. Todos me pareceram bastante reservados, e até mesmo as conversas nas ruas pareciam poucas. Uma visita ao Cabaret Voltaire, um café descolado em um bairro meio boêmio de Zurique dá uma dica: o local tem ares cool (lembra mais uma instalação ou galeria de arte), e na vitrine um cartaz pintado a mão na janela dava a bandeira: "Por favor estrangeiros, nos salvem dos Suiços !" .






Cenas da Loveparade: Diabinha, multidão errante e freira com a bunda de fora 

Certamente por lá ninguém parece se importar com  aparência, atitude ou iniciativa dos outros. A discrição suíça é mesmo legendária, e ponto final. Parece que a grande exceção, a grande overdose de permissividade se dá durante a Love Parade de Zurique, uma espécie de carnaval eletrônico, totalmente over, que varre suas ruas durante quatro dias a cada verão. As pessoas usam fantasias, mulheres e homens vestem fio dental, dançam, entre outras coisas.. Por sorte eu estava lá na semana daquela edição, e testemunhei algumas coisas bem estranhas, como mostram as fotos. Para um brasileiro, o desbunde de um gernânico é sempre engraçado, impagável, e um pouco constrangedor de se ver, e ótimo como lembrança de viagem.


Suiça: o Enxame Enxaimel


Onipresentes Alpes no horizonte, embelezando a vida deste povo tão sofrido ..

Zurique, Zurich (em alemão e francês) ou Zurigo (em italiano), é uma cidade trilingue. Por ser a cidade chefe da Suiça alemã predomina obviamente o alemão, mas dá pra se virar no inglês, falado me parece que por todos. A cidade não possui um monumento marcante ao ponto de ser sua "foto" registrada, com exceção talvez da velha catedral Grussmünder, segundo a lenda fundada por Carlos Magno em pessoa, e cuja silhueta se destaca entre os prédios, todos baixos, uma vez que a administração do cantão só permite a construção de prédios altos e modernos no distrito industrial, longe do centro. Há também a torre da igreja St Peter, com seu enorme relógio suíco, erguida no local em que havia originalmente um templo romano dedicado à Jupter. Há também ali perto a torre azul da catedral Fraümunster. Entrar em um trem e explorar os subúrbios e distritos de Zurique é uma boa opção para variar a paisagem do centro, além de custar pouco. Duas estações depois e você já está em outro mundo, cheio de florestas, hortas, vaquinhas e picos nevados ao fundo. Relaxe, coma  um chocolate Lindt e um toblerone, afinal, você está na Suíça.

A Torre azul da catedral Fraümunster




Um Ogro divertido numa escola pública nos arredores de Zurique.

(Todas as Fotos: Lord Vader)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Roma I

 Rômulo e Remo pendurados na teta da gentil loba que os adotou, segundo a lenda etrusca

Roma, a cidade eterna, de Fellini, e local onde parte do que hoje entendemos como civilização, para o bem ou para o mal , começou. A sede do maior império que já passou à história, grande eco amplificador da sociedade grega. Mas Roma estava longe de ser a Grécia. "O rude conquistador foi conquistado pela graça dos gregos", bem disse o historiador. Foi através das "rudes mãos" de Roma, com todo o seu pragmatismo militarista, que a maneira "greco-romana" de entender o mundo ganhou o planeta e ecoa fortemente até os nossos dias, seja através da lingua que falamos, no código penal que utilizamos ou mesmo no arremedo moribundo da única instituição do império que ainda se arrasta pelo planeta: a religião católica .


Típica rua estreita do centro

A cidade de Roma hoje possui a formidável característica de ser uma metróple européia , bastante caótica é verdade , mas que se dá o luxo de trazer, espalhada entre suas ruas, magníficos tesouros arqueológicos à céu aberto, alguns incrivelmente bem preservados, daquela civilização milenar que forjaria a história do ocidente como nós conhecemos. Ruínas romanas existem em pelo menos meia duzia de países da Europa, mas nada se compara ao tamanho e importância do que se pode contemplar na sua antiga capital. Há muito para se falar de Roma, por isso essa postagem estará fragmentada em várias partes.


Um pouco do Caos de Roma


Como era de se esperar a cidade é concorrida, tumultuada e cara. Sendo a meca de turismo que é, natural que as filas sejam quilométricas, as pessoas estejam impacientes, e que os italianos sejam mais italianos do que nunca. O encanto pode ser levemente quebrado, mas, de novo, não existe viagem perfeita. Parece que todos na rua estão com um mapa na mão, concentrados à procura da próxima atração. Já ouvi muitas histórias de turistas que foram roubados, mas sendo bom brasileiro, não acredito que exista motivo para pânico. O Metrô, a limpeza das ruas, o trânsito, a hospitalidade, a quantidade de pedintes, a qualidade dos serviços, enfim, tudo está bem abaixo do padrão europeu que se esperaria, e é bom que se esteja preparado para isso. No balanço final, gostei muitíssimo de Roma, e aconselho a todos que porventura pensam em visitá-la, a fazê-lo de coração aberto, e uma dose extra de paciência, pois a experiência é inesquecível e seus tesouros indescritíveis .

velha tradição anarquista italiana em cartaz no Circo máximo 

Continua ....

(Todas as Fotos: Lord Vader)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Roma II


O Coliseu

N do R : Esse post é uma continuação do post Roma I

Embora Roma não seja apenas as reminiscências do império que um dia sediou, com certeza isso é a maior parte do que a cidade tem de atraente. E a disputa é forte: todos parecem estar ao mesmo tempo visitando as ruínas, e os lugares estão sempre concorridos, barulhentos, e com os banheiros imundos. Sem problema, pois vale o pequeno sacrifício para estar diante de estruturas tão imponentes e testemunhas de um momento perdido no tempo. Em Roma, a maioria das atrações arqueológicas se encontram em torno da estação de metrô Circo Máximo, portanto é o primeiro local para onde todos correm logo cedo. Ao seu redor estão a maioria dos pontos de interesse, e logo que sai da estação o turista dá de cara com a maior vedete do complexo, o Coliseu. De pé, pelo menos em parte, durante os ultimos dois mil anos o estádio é protótipo para todos os grandes estádios que existiriam depois dele, até os nossos dias. Inicialmente era parte fundamental da política imperial do pão e do circo, cujo ideal era manter a patuléia afastada de pensamentos como impostos e guerra civíl. Espetáculos grandiosos eram encenados ali, lutas entre homens, lutas entre gladiadores e feras africanas trazidas especialmente para os jogos, peças de teatro , e até batalhas navais (quando o picadeiro era inundado para os navios flutuarem). O palco ficava acima de um complexo sistema de elevadores e tuneis, por onde as feras eram levadas à frente da audiência. Hoje a historiografia praticamente descarta a exibição de cristãos primitivos sendo devorados por leões ali. Com o passar das eras o lugar foi repetidas vezes pilhado e queimado, virou cemitério, igreja, favela e centro comercial, mas hoje está de pé, resistindo aos turistas. No seu interior um pequeno museu conta a sua história e exibe artefatos e mosaicos do período imperial. O mesmo ingresso do coliseu serve para as demais atrações arqueológicas da área.


O Arco de Constantino

Logo à frente do anfiteatro está o Arco de Constantino , um arco triunfal muito bem conservado , celebrando o imperador que seria mais tarde o inventor do catolicismo e responsável indireto pela cristianização de todo o mundo ocidental. O arco ainda guarda algumas pedras originais de mármore, e percebe-se que as esculturas romanas, ao contrário das refinadas originais gregas, eram toscamente talhadas como ornamentos. Arcos triunfais seriam uma constantes nos milênios vindouros, por todo ocidente. Ao seu lado fica a entrada para a via sacra, a estrada que dava acesso ao Monte Paladino, onde viveram muitos imperadores, e também ao magnífico Forum Romano.


Forum Romano

Forum Romano era o centro nervoso da antiga capital, abrigando inúmeros templos, arcos triunfais, e centros comerciais. Sem dúvida é o local que mais estimula a imaginação. O Forum era o lugar onde as pessoas se encontravam, onde as notícias corriam e a vida da cidade acontecia. Aguns arcos triunfais como o de Tito estão impressionantemente preservados , mas a maioria dos Templos está em ruínas ou conservam apenas uma ou duas colunas de pé. Meio perdido no meio daquilo tudo está o túmulo de Júlio César, o homem que conquistou a Gália (França), e que incrivelmente estava apinhado de flores recém colocadas no dia em que o visiei.


Coluna de Trajano


Ainda nas imediações do circo máximo existem ruínas do enorme complexo do Forum de trajano, onde infelizmente pouca coisa restou de pé, exceto o monumental Arco de Trajano , um curioso pilar que conta a conquista da Trácia pelos romanos, através de desenhos em relevo, como se fosse um ancestral das revistas em quadrinhos.


O Magnífico Panteão

Outra bela estrutura reminiscente da antiguidade é o Panteão. Concluído pelo impertador Adriano servia como um enorme templo dedicado a todas as divindades romanas. Os romanos tinham como hábito assimilar e sincretizar cultos vindos de suas províncias, além de já adorarem há muitas eras os deuses gregos, cujos nomes eram adaptados ao latim por eles. Mas muitos cultos vindos das colônias orientais se tronaram um sucesso entre o povo romano, como o culto à Mitra, Isis e até mesmo à Jesus Cristo, que mais tarde se tornaria a única divindade cujo culto era permitido dentro do império. Por causa disso o templo originalmente pagão e politeísta foi convertido na igreja de todos os santos, e continua de pé até hoje, lindamente decorada e espremida entre ruas apertadas no centro de Roma.


Detalhe do Arco de Tito , mostrando a pilhagem de um candelabro judaico durante a conquista da judéia , atualmente Israel

É ainda possível topar com relíquias arqueológicas em ilhas de trânsito, pontos de ônibus e terminais rodoviários, e de fato muitas estruturas  que ainda funcionam na cidade foram erguidas aproveitando-se das ruínas da antiga muralha romana, um muro colossal, levantado às pressas na tentativa de proteger a capital dos povos bárbaros que assediavam um já decadente império. Não teve jeito: Roma caiu , mas muita coisa continua lá de pé para ser testemunhado.



Circo Máximo. Hoje pouco resta do antigo local das corridas de bigas, competição séria na Roma antiga, pela qual Nero era fascinado. Ao fundo as antigas tribunas dos reis

Continua ..


(Todas as fotos: Lord Vader )

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Roma III

 Fontana di trevi (à noite é mais gostoso)

(N. do R : Esta postagem é uma continuação das postagens Roma I e Roma II )

Mas Roma não é apenas o seu legado da Antiguidade. A cidade possui também uma forte herança barroca em seu legado, quando por volta do século XVII, portanto no auge do barroquismo, foram levadas à cabo realizações arquitetônicas de diversos papas, sobretudo Clemente XII, com o intuito de re estruturar a cidade, na época um tanto decadente, com monumentos que fizessem juz às antigas glórias do passado.  A Fontana di Trevi, para muitos a própria alma da cidade, é o exemplo máximo do barroco Romano. Ao se colocar os pés ali imediatamente vem à mente a sequência antológica de La Dolci Vita de Fellini , tão presente na memória de qualquer cinéfilo.O clichê da moedinha é repetido por todos : atire uma e faça um desejo, ou a variação mais comum, atire uma moedinha para voltar à Roma numa outra ocasião. Mas geralmente um ou outro turista bêbado vai além e acaba entrando na água com roupa e tudo.


A imponente Fontana di quatri Fiumi

Outro local bem icônico do barroco é a Piazza Novona , também sempre concorrida , com todos querendo admirar a bela Fontana di quatri Fiumi, uma representação idealizada dos principais rios do planeta . Um pouco distante dali está a também muito emblemática Piazza di Spagna , com seu visual e atmosfera agradabilíssimos, superlotada e barulhenta, com todos sentados na monumental escadaria que leva à igreja Trinidade do Monte, celebrando a alegria de estar em Roma. Foi o programa perfeito para um final de tarde, e o recomendaria à qualquer um. Parece que todo mundo corre para lá para ver o sol se pôr, e esperar a noite para ver as luzes da Barcaccia , a bela fonte barroca em forma de barco no centro da praça, imediatamente à frente das escadarias, se acenderem. Este cenário costuma ser bastante utilizado em filmes ambientados em Roma, e por isso também é ponto obrigatório para cinéfilo.


A Feliz Piazza de Spagna ...


...e sua inseparável Barcaccia

Outras três paradas em Roma são propícias para se contemplar o patrimônio não-arqueológico da cidade. A primeira, datando de uma época bem anterior ao Barroco é a igreja Santa Maria de Cosmedin , uma igreja que data do século X , e que contém a célebre Boca della Veritá , na verdade uma antiga máscara do deus Tritão, filho de Poseidon, e antigo resquício de um templo que data da antiguidade. Diz uma lenda medieval que ao se colocar a mão na boca da verdade e dizer uma mentira, a mão será arrancada pelo deus. Bem, todo mundo quer bancar Audrey Hepburn e Gregory Peck em A Princesa e o Plebeu (o grande cartão postal Hollywoodiano da cidade), e repetir a cena que da máscara, portanto prepare o saco para mais meia hora de fila. Não deixe de ver também a igreja, com seu horripilante acervo de relíquias e ossadas de santos católicos, uma verdadeira epopéia da necrofilia religiosa .


Boca da Verdade

Pólux, filho de Lêda e irmão de Castor, guardando a entrada do Monte Capitolino

Da Renascença, a  Piazza del Campidoglio (no Monte Capitolino) é a maior relíquia. Durante a antiguidade foi alí o local do então célebre templo de Jupter (Zeus), e local-chave para muitos eventos históricos da Roma antiga. Na renascença o papa Paulo II encomendou a Michelangelo a construção de uma praça com três palácios que estão de pé até hoje. Atenção, a vista mais incrível que se tem do Forum Romano é a que se vislumbra por trás do Capitólio. Mas ela é um pouco escondida e poucos chegam lá . Datanto de um período ligeiramente posterior destaca-se o Campo del Fiori, bem no centrão, local do antigo mercado das Flores, onde hoje funciona uma feira bem imunda. Ali foi queimado o pensador e filósofo Giordano Bruno, hoje homenageado com uma estátua no local exato de sua imolação.


O "Bolo de Noiva"

Logo ao lado do Capitólio, com uma curta caminhada, chega-se na Piazza Venezia, onde está o monumento mais recente e maldito de Roma :  o Memorial Nacional a Vitório Emanuel II , o unificador da moderna Itália. Não é segredo para ninguém que a unificação do país não agradou a todos os italianos, mas ainda contribuem para a impopularidade do prédio a sua associação com o Fascismo de Mussolini e as guerras sujas que a Itália se meteu no século XX, pois ali funciona o museu militar, o que não é exatamente o orgulho nacional. De fato, trata-se de uma imponente aberração greco Romana, que recebeu os apelidos carinhosos de bolo de noiva e Elefante branco por parte dos sacanas italianos. Passando pela praça em direção ao panteão, fatalmente se passa por baixo das sacadas do Palácio Veneza , onde um delirante Mussolini bradava que Roma seria novamente um império glorioso sob sua tutela.

Campo de Fiori a estátua de Giordano Bruno no local exato em que foi tostado pela inquisição


(Todas as Fotos: Lord Vader)